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Gestão de Pessoas e a Arte do Vitimismo - Parte 4.4 (Acasalamento)


Conforme citei nos artigos anteriores, Bion, foi um psiquiatra e psicanalista inglês que desenvolveu pesquisas sobre a formação e fenômenos comportamentais de grupos.

Alguns conceitos interessantes trazidos por Bion são de que existe a mentalidade do grupo

coletiva, que funciona como uma unidade e que, frequente e naturalmente, entra em conflito com a mentalidade de cada um dos indivíduos que compõem o grupo em questão. Já o grupo de trabalho, foi por ele subdividido em dois tipos de grupo que operam de maneira simultânea, opostas e interativas, promovendo uma série de desdobramentos, os quais podem ser bem acompanhados e observados. O primeiro, denominado "grupo de trabalho propriamente dito" está voltado para os aspectos conscientes de uma determinada tarefa acordada entre todos os membros do grupo, ou seja, este grupo equivale às funções do ego consciente. O segundo é o "grupo de base ou de pressupostos (ou supostos) básicos", que obedece às leis do inconsciente de cada indivíduo, onde as fantasias individuais e grupais adquirem uma das três formas típicas de comportamento: dependência; de luta e fuga; e de acasalamento, as duas primeiras já discutidas em artigos anteriores e publicados neste blog.

Bion também trouxe o termo "valência" da química, como metáfora, para explicar que quanto mais harmônicas as valências, maior é a coesão do grupo. Isto é, demonstra maior ou menor predisposição do indivíduo para fazer acordos com os demais, a depender do pressuposto básico em atividade.

O acasalamento (ou boicote) como suposto básico no modelo de Bion, se refere a um estado inconsciente em que o grupo busca formar alianças ou pares com o objetivo de criar uma sensação de segurança e coesão. Em vez de se concentrar na tarefa ou objetivo do grupo (como no nível do "grupo de trabalho"), o grupo em acasalamento está mais interessado em estabelecer relações interpessoais e criar um senso de unidade ou pertencimento.

O principal objetivo do acasalamento é buscar uma conexão emocional e segurança dentro do grupo. Esse comportamento pode surgir como uma maneira de enfrentar ansiedades, inseguranças ou a necessidade de apoio mútuo.


Algumas justificativas para o comportamento por acasalamento são:


  • Busca por conexão: O grupo pode se dividir em subgrupos ou formar pares em busca de afinidade e compreensão mútua. Essa busca pode se manifestar em comportamentos como estabelecer amizades íntimas, formar pequenos grupos de apoio ou criar uma estrutura hierárquica informal baseada em relações pessoais.

  • Evasão de conflitos: Evitam enfrentar diretamente os problemas ou desafios do grupo, a atenção pode ser desviada para a construção e manutenção de relações interpessoais. O grupo pode evitar discussões difíceis ou conflitos reais ao focar em aspectos emocionais e relacionais.

  • Criação de alianças: Há uma tendência de formar alianças no grupo. Esses subgrupos podem atuar como uma forma de proteção contra a insegurança percebida e oferecer um suporte emocional mútuo. Como ponto negativo, reforçar o distanciamento da tarefa em si, podendo parecer ou funcionar como boicote.


E quais são os impactos do funcionamento do grupo?


  • Coesão e harmonia: O acasalamento pode promover um ambiente de coesão e harmonia, onde os membros do grupo se sentem mais conectados e apoiados uns pelos outros. No entanto, essa coesão pode ser superficial se não estiver acompanhada de um trabalho efetivo na tarefa do grupo.

  • Impedimento da tarefa: A ênfase excessiva nas relações interpessoais pode desviar a atenção das tarefas e objetivos reais do grupo. Isso pode levar a uma diminuição na eficiência e eficácia do grupo em atingir suas metas. A falta de foco pode levar a atrasos em projetos, baixa eficiência e dificuldade em atingir metas organizacionais. A produtividade do grupo pode ser prejudicada quando as discussões e atividades se concentram mais em construir e manter relações do que em resolver problemas de trabalho.

  • Confusão de papéis: A formação de pares e alianças pode resultar em uma confusão de papéis e responsabilidades, já que as relações interpessoais podem começar a sobrepor-se às funções e tarefas designadas.


Posso citar alguns exemplos práticos no ambiente corporativo:


  • Construção de relações: Em uma empresa, um grupo pode se envolver em atividades sociais ou de team-building que visam fortalecer as relações pessoais, em vez de focar diretamente em problemas de trabalho ou desafios de projetos.

  • Formação de redes internas: Funcionários podem formar grupos informais ou alianças baseadas em afinidades pessoais, como interesses comuns ou experiências compartilhadas, o que pode criar uma sensação de pertencimento, mas também pode levar a uma cultura de exclusão para aqueles que não se encaixam nesses círculos.

  • Evitação de conflitos: Ao invés de enfrentar abertamente problemas de desempenho ou questões de trabalho, a equipe pode se concentrar em manter um ambiente harmonioso, evitando discussões que poderiam ser necessárias para resolver problemas reais.

  • A inovação pode ser sufocada, pois membros do grupo podem evitar apresentar ideias novas ou contrárias para não perturbar a harmonia estabelecida. Isso pode resultar em estagnação e na perda de oportunidades para melhorias ou avanços importantes.

  • Pode criar uma dinâmica onde os membros do grupo se tornam excessivamente dependentes uns dos outros para apoio emocional, prejudicando a capacidade individual de enfrentar desafios ou tomar decisões de forma autônoma. A dependência emocional pode afetar a resiliência e a autonomia dos indivíduos no grupo, fazendo parecer que o líder em questão é eficiente quando, na verdade, esconde os problemas.


E como mitigar este problema?


  • Estabeleça claramente as funções e responsabilidades de cada membro do grupo para evitar confusão e garantir que todos saibam suas tarefas e objetivos.

  • Promova um ambiente onde o feedback é bem-vindo e encorajado, e onde as discussões difíceis possam ser abordadas de forma construtiva.

  • Crie oportunidades para brainstorming e introdução de novas ideias, garantindo que todos os membros do grupo se sintam seguros para compartilhar pensamentos inovadores sem medo de perturbar a harmonia.

  • Faça esforços para separar as relações pessoais das profissionais, garantindo que as decisões e interações no trabalho sejam baseadas em mérito e necessidade do projeto, e não apenas em afinidades pessoais.

  • Capacite os membros do grupo com habilidades para lidar com conflitos e diferenças de forma saudável, ajudando a manter um ambiente de trabalho colaborativo e eficaz.


O acasalamento, como suposto básico na teoria de Bion, descreve uma dinâmica de grupo onde o foco está na criação e manutenção de relações interpessoais como uma forma de enfrentar ansiedades e construir um senso superficial de coesão com a fantasia da manutenção de seu status quo. Ao mesmo tempo em que isso pode criar um ambiente mais solidário e harmonioso, é crucial equilibrar essas dinâmicas com uma abordagem focada na tarefa para garantir que os objetivos do grupo sejam alcançados de maneira eficaz e produtiva.


Fonte: Livro Experiências com Grupos - W.R.Bion, 1975, Ed. Imago

 
 
 

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