Não existe dúvida idiota! Existe dúvida!
- Patricia Neto
- 26 de jun. de 2020
- 3 min de leitura
Atualizado: 27 de jun. de 2020
Foram muitos anos de trabalho e paixão pela Medicina de Emergencia. Ambiente hostil, vulnerável, plantão de 12h, 24h, 36h. Muito sono. Ausência de especialização. Supervisão inadequada. Efeito surpresa no ar. Saidas de ambulancia. A qualquer hora poderia chegar nenhum ou
até 10,15, 30, 100 pacientes ao mesmo tempo, numa catástrofe. Treinamentos de times de trabalho e no trabalho. Assim como pode chegar um paciente e ser uma catástrofe. Um destes exemplos foi um homem de 40 anos que tinha uma filha de 4 anos, forte, aparência super saudável, jogador de tênis e corredor. Relatava como queixa principal dor no ombro que começara naquele dia, após o jogo de tênis e que piorava ao movimento. O plantonista, recém formado, se especializando em área distante da Medicina de Emergência e trabalhando no Serviço de Emergência por falha no recrutamento e porque precisava para sua subsistência, atende este paciente .
É uma queixa de dor no ombro e não tem ortopedista no plantão, situação que, ao contrário do que deveria, causa terror nos plantonistas de Emergencia recém formados e, lamentavelmente, em muitos veteranos também.
E por causa da dor no ombro, o plantonista pede uma radiografia apesar de não haver nenhum sinal de alteração clínica que pudesse ser detectada na radiografia. Costumo dizer que é o típico exame solicitado para tranquilizar o plantonista.
Considerando que dor no ombro faz parte dos sintomas do Protocolo de Dor Torácica , o plantonista solicita também eletrocardiograma e troponina .
A radiografia era normal e o
paciente recebe alta hospitalar com atinflamatorio e orientação para marcar ortopedista.
Chego pela manhã no hospital e a enfermeira, apavorada, me para no corredor e informa que um paciente que tinha sido atendido na noite anterior havia falecido em domicílio, vítima de morte súbita. Congelo por segundos
Na avaliação retrospectiva do prontuário, não havia sequer uma sinalização de que a anamnese teria sido realizada com este foco. O eletrocardiograma evidenciava claramente Infarto Agudo de parede anterior do miocárdio.
Porque será que o plantonista não viu o infarto? Será que não interpretou o exame ou o fez e não soube detectar o infarto? Nas duas situações cabe o questionamento sobre o que é ter dúvida ou o que desencadeia a dúvida?
Costumo dizer que, muitas vezes, a pessoa nem sabe que não tem a dúvida.
O plantonista pode não ter valorizado a importância do eletrocardiograma nesta situação clínica particular (dor no ombro) e subvalorizado o exame clínico e eletrocardiográfico ou, de fato não soube interpretar. Nunca saberemos.
Mas cabe uma complexa e difícil reflexão para os líderes de equipe de Serviços de Emergencia para que aprendam a lidar e estejam atentos a esta questão .
Para assumir que se tem uma dúvida é preciso ser humilde suficiente para assumir o que não sabe. Olhar para uma situação e assumir que não sabe o que fazer ou que está apenas repetindo algo que lhe fora imposto, sensação que é muito comum quando o assunto é protocolo assistencial.
Lembrando que, na Emergência, a falta de humildade do médico é capaz de matar um paciente.
Portanto: não sabe = peça ajuda antes de tomar uma decisão pois, eventualmente, você nem sabe se o seu “não saber” pode implicar num desfecho ruim. Logo, pergunte!!!
Não tenha vergonha de não saber!
Assumir que não sabe algo é uma virtude, acredite!
Ao contrário do que se propaga, o médico do Serviço de Emergência não é um herói.
Precisa sim, ter formação específica, habilidades de liderança e comportamento humilde e servil.




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